
O Lobo de Cada Um
Foi mordido a apenas dois dias mas antes disso sua vontade de matar já era grande demais. Nao conseguia se conter ao ver violência. Sempre retribuía na mesma moeda e até quando era gentil era grotescamente mal.
Em seu pensamento não havia ser humano nenhum na face da terra que fosse bom ou honesto. Criou em sua mente a ideia que o bicho homem ou nascia assim ou era deturpado no decorrer de sua existência pela sociedade ou vizinhos.
Nao entregou sua vida para o lobisomem de graça. Andava com uma bela faca no bolso e sabia usa-la. Era rápido mas nao forte, lutava algum boxe mas era só. Nenhum poder, nenhuma marombice. Era apenas alguém que ja havia levado pancada da vida, alguém que ja derrubou um ou outro assaltante incauto. Enfim era só alguém que lutava pra sobreviver. Nao era tão bom nisso mas ia levando. O Lobo achou graça. Tentou duas vezes arrancar o braço do humano, mas se deparava com a lâmina riscando seu focinho. Tentou rasgar com suas garras mas o humano era safo. Então ele formou uma ideia em sua mente. Tranformar aquele lutador seria interessante. Viu nele as marcas que ele também teve antes de se transformar. Aí estava, passaria seu legado aquele humano e descansaria em paz.
O homem nao se surpreendeu ao ser atacado por um lobisomem. 20 anos de rpg nas costas, alguns estudos ocultistas, outros encontros com coisas sobrenaturais. Achava que ja tinha visto muito, mas ainda era pouco. Percebeu uma leve hesitação no lobo. Será que tinha chances de vitória? Contaria pros netos que derrotara um lobisomen, somente as crianças iam acreditar mesmo e um ou outro amigo. Também hesitou, estava cansado e o corpo doía, sentia uma ânsia de vômito crescente. ‘Maldito strogonoff com cheiro de azedo’ pensou.
O lobo deu mais um bote, calculado e preciso e o homem não pode fazer mais nada. As presas cravaram-se em sua carne, seu corpo perdeu a força, estava cedendo. Detalhes da sua vida começaram a passar pela sua mente e eram coisas que nem se lembrava mais. A faca caiu no chão. Ele caiu no chão, vagarosamente. De um modo gentil o lobo o segurava. Nao estava entendendo mais nada. Cadê a máquina assassina e sem sentimentos? Porque não arrancara logo sua cabeça e comera seu coração?
Sua raiva estava crescendo. Que porra era essa que esse bicho tava fazendo? Antes de apagar viu o lobo arrancando o próprio coração pulsante. Tudo ficou escuro.
Se viu entao numa espécie de templo antigo. Uma presença poderosa se fazia sentir. Avançou templo adentro, queria morrer logo e acabar com aquela palhaçada. Gritou a plenos pulmões: ‘Cade o deus dessa merda, vamos acabar com isso logo!’
Uma sombra enorme se levantou. Uma sombra dentro das sombras. O homem não conseguia vê - la direito.
‘Eu passarei meu legado, humano. Você é o novo escolhido. Castigue os maus. Destrua os injustos. Espalhe a morte entre os impuros. Eu estarei com você.’
Seu coração nao era mais seu. Era um coração de lobo, selvagem, feroz e sedento de sangue. Seu peito ardeu em fogo, olhou a criatura nas sombras e sorriu. Sorriu com uma satisfação tao grande que a própria criatura se surpreendeu.
Uma luz forte bateu em seu rosto. Ao seu lado sua esposa e seus dois filhos, choraram de alegria ao vê-lo acordar. Ele estava feliz, sabia o que fazer e iria fazer com gosto. Nao precisaria mais conter sua raiva porque agora ela tinha um propósito.
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