O Começo da Noite
Aquela noite ia mesmo ser terrivelmente longa. Naquele breve segundo que eu levei pra acender o meu cigarro e leva- lo aos lábios, já pude ver dois sinais de brigas iminentes, uma garota solitária, um bêbado que ia se afogar no próprio vômito e um andarilho se preparando para pedir algumas moedas. Outros detalhes não tão relevantes passaram como flashes e não lhes dei atenção. Se isso era realmente tudo que ia acontecer naquele bar aquela noite então eu deveria procurar outro lugar.
Antigamente aquele bar me agradava e muito. Eu sempre tive aquela curiosidade de observar as pessoas, suas reações e suas manias. Me relacionava com algumas e alguns, não me importava com gênero em se tratando de suprir os meus prazeres, e, cada um tinha uma história, cada um tinha caso que eles mesmos insistiam em contar. Acho que viam em mim algum tipo de psicólogo. Talvez eu seja um ótimo ouvinte.
A verdade era que eu procurava alguma coisa mas não sabia o que era. Talvez eu não tenha procurado com afinco ou talvez tenha procurado nos lugares errados. O fato é que eu estava irremediavelmente entediado e isso por si só era um convite ao fim da vida. Nada, nem naquele bar nem eu qualquer outro me chamava mais a atenção.
Joguei umas notas no balcão ensebado sem ligar para o troco e fui até o banheiro. A cocaína no meu bolso já estava fazendo aniversário. Ia usar aquele lixo mais uma vez pra ver se dava uma animada. Andava de cabeça baixa pensando em um milhão de coisas sem entender nenhuma delas. Topei bruscamente em um camarada que saía do banheiro. Parecia um pouco apressado. Estava finamente vestido e passava despreocupadamente um lenço um pouco manchado na boca. Não pude deixar de notar sua presença. Era como se ele expelisse algum tipo de hormônio atrativo. Era forte, visivelmente forte, mas não era do tipo musculoso. O cabelo era bem cortado, estilo militar e os olhos eram de um castanho daqueles bem outonais. ele olhou para mim com um pedido de desculpas e um sorriso no rosto. Parei para responder e fiquei meio sem fala, o perfume dele era suave, lembrando alguma madeira nobre. Entorpecente eu diria. Mas o intrigante não era isso, na rápida troca de olhares eu percebi que ele havia me analisado por completo e que já tinha um diagnóstico.
Ele me convidou para um drink, não pude recusar. Aos poucos notava que ele era como eu. Quase um ancião dos bares nas noites. Ele me contou sobre diversos lugares em que esteve. Seus trejeitos eram muito refinados e seu sotaque me lembrava os sulistas. Segundo ele, estava nessa cidade a uns vinte anos. Se tornara parte dela. Não ousei em nenhum momento perguntar sua real idade, ele parecia jovem demais, mas o seu jeito de falar, a sua postura e as suas histórias eram de alguém que já passara por muita coisa boa e ruim.
Nesse tempo todo que estive conversando com ele, esqueci do meu tédio mortal, dava risadas reais, como a muito tempo não fazia. Mas tinha algo a mais, algo que não conseguia identificar. Nunca fui muito fã dessas coisas de acreditar em astrologia nem em magia, mas a aura que acompanhava esse rapaz me fazia ao mesmo tempo ter receio quanto me animavam.
Saímos pela noite, estava cedo ainda. Foi quando tudo começou a ficar estranho. Olhei no meu relógio e estranhamente ele tinha parado as duas horas e cinquenta e nove minutos. O céu não tinha estrelas e as ruas do centro estavam vazias. Não via os mendigos, nem os ratos, os boêmios e baderneiros, nada. Não fazia frio nem calor, não passava sequer um carro. No início não dei importância, mas quando atravessamos a Afonso Pena e o silêncio mortal continuava sobrepujando nossas risadas comecei a me preocupar. Pude notar que meu novo amigo também estava inquieto. Ele olhava constantemente pra todos os lados como se temesse algo. Ele se calou e eu também. “Acho que a noite não vai terminar como esperado”, ele me disse.
Uma sombra começou a tomar forma na rua. Achei que era algum tipo de ilusão criada pela bebedeira. A sombra cresceu rapidamente escurecendo toda a rua a ponto de não se ver um palmo adiante do nariz. De súbito, um forte vento começou a me rodear, gelado e cortante. Vozes zangadas gritavam a minha volta.
O terror tomou conta de mim. Meus ouvidos sangravam, não conseguia me localizar e muito menos me manter de pé. Estalos constantes me atingiam, rasgando minha pele, por todos os lados. Eram como chicotadas furiosas. Estava prestes a perder os sentidos quando uma mao fria me agarrou. Era o meu novo amigo, pude ver na sua outra mão uma pedra que emitia uma luz forte e até podia arriscar, acolhedora. Ele estava maior, o seu rosto mais branco e alongado , o maxilar saltado deixando a mostra dentes pontiagudos e maiores do que o normal. As veias estavam saltadas, os olhos negros e sem pupilas, estava sem força pra resistir. Ele me arrastou e eu soube que de alguma forma aquela luz nos protegia impedindo que as almas zangadas dentro daquela escuridão espessa nos agredissem com seus chicotes.
“Acho que agora não estou tão bonito, disse, a voz entrecortada pelos espasmos de dor e engasgos de sangue, eu vou morrer? Não consegui as respostas que buscava. ainda tem você e o que está acontecendo agora.” Eu ri, mas nem de longe pareceu uma risada.
Meu amigo sorriu e pude ver o tamanho real dos seus dentes, os caninos eram do tamanho do meu mindinho e eu não sabia se os temia aqueles ou se ficava calmo com as palavras tranquilizadoras que ele me lançou a seguir. “ Não se preocupe meu nobre amigo, sua vida vai começar a partir de agora.”
Ele retirou um pequenino frasco de uma corrente fina em seu pescoço e me ofereceu o que havia dentro.
“ Beba agora e será como eu, terá o tempo que quiser para saber todas as respostas e eu te ensinarei o verdadeiro sentido da humanidade.”
Atrás dele eu pude sentir que as sombras rodopiavam furiosas sem ter como se aproximar. A luz da pedra as afugentavam. Abri dolorosamente a minha boca, não fiz nenhuma pergunta, até porque não tinha força pra fazê-lo e deixei o líquido escorrer por entre minha garganta.
Não me lembro o que aconteceu exatamente. Sonhei com uma caverna escura e um livro que teimava em passar as suas páginas repetidamente. Ao olhá-lo vi que folhas estavam em branco. Acordei em uma cama confortável envolvido em lençóis de seda. As janelas estavam fechadas e as cortinas lacradas. Meu novo amigo estava sentado ao meu lado.
Apaupei meu rosto nos lugares onde sabia ter sido atingido, me levantei trôpego e olhei no espelho. Estava pálido e as veias saltadas, no geral parecia normal. Me sentia ótimo, mais vivo do que nunca. Consegui ouvir o que conversavam no quarto ao lado, distinguia com clareza os sons e vozes da rua. Senti o cheiro de um restaurante e podia dizer exatamente quais temperos eles usaram. Minha visão estava limpa e clara, meu cérebro respondia rapidamente a qualquer impulso meu com uma rapidez miraculosa. Olhei para o meu amigo sem entender. A pergunta se formando automaticamente em meus lábios, mas antes que ela saísse ele falou.
“ Meu nome é Alastor Deckhard e você é o meu mais novo aprendiz. Não temos muito tempo. As sombras estão mais fortes. Preciso te ensinar o que é ser um vampiro, a controlar seus instintos e a não matar humanos deliberadamente. Existimos para que, criaturas das trevas maiores não destruam esse mundo.”
Aí sim, nessa hora meu queixo caiu e fiquei sem palavras.

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