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Os Monstros da Cidade pt3




Renascido no Fogo

Os caras capricharam na decoração. Os balões verde e vermelho que representavam as cores do grupo de jovens estavam encaixados perfeitamente um no outro, e criando um belíssimo arco por sobre o altar. Arranjos florais estavam espalhados simetricamente em cada fileira de cadeiras para os fiéis. Uma enorme mesa estava posta e decorada com um trabalhado forro bordado a mão, que representava o calvário de Jesus, aguardava apenas os comes e bebes preparados especialmente para a ocasião.

Esse ano a festinha da igreja ia ser a melhor desde que eu entrei pro culto. Muitos jovens, a maioria, digamos, bastante irresponsável ainda, imaturos. Não podia recrimina-los por serem jovens. Já fiz muita besteira na minha vida, mas principalmente na juventude. Usei muitas drogas, me envolvi em brigas, tenho uma bala alojada na perna que me mata em épocas de frio, não sei porque, mas quando tá frio, eu sinto ela gelada na minha perna. Fugi da minha fé, do chamado de Deus, por muito tempo e ele me deu muitas chances de me redimir e purificar meu corpo e alma dos meus pecados.

Três anos limpo.

Aquele grupo de jovens me mostrou muitas coisas, maravilhas que eu não notaria nunca se estivesse sozinho. Consegui uma boa esposa e ela está esperando nosso primeiro bebê. Queria muito um menino, mas uma menina seria ótimo também. Minha esposa é perfeita, segue ideias diferentes mas não me importo, ninguém é o obrigado a ter opiniões iguais. Na terra de onde ela veio a cultura era um pouco diferente e ensinavam sobre deuses diferentes. Tudo bem, com o tempo ela iria aprendendo.

Despedi-me dos jovens, estava cedo e eu queria muito tomar um banho antes dos festejos. Curtir um pouco a esposa.
O clima estava estranho quando saí do templo, parecia que ia chover, estava muito abafado e quente, um nublado estranho. Demorei mais tempo do que eu queria pra chegar em casa, minha bicicleta não estava em bom estado. Cansado do trabalho e ainda de ter feito várias tarefas árduas no templo, mas subir os morrinhos da avenida
Amazonas era duro.

Ao entrar em minha casa, minha esposa orava para suas imagens de argila e ao me ver entrar correu a me abraçar apertado. Não entendi aquele carinho todo assim num rompante. Geralmente ela era mais tímida e reservada. Pude notar claramente que algo a preocupava é provavelmente ela não ia me dizer do que se tratava mesmo que eu insistisse. Eu insisti e não errei em minhas previsões. Ela só me disse algo que me intrigou: “se prepare que está quase na hora de mostrar que é digno” .

Tomei meu banho pensativo. Vesti uma roupa simples mas bem alinhada. Uma camisa Polo azul marinho, uma calça jeans e minhas botas. Coloquei alguns trocados na carteira, documentos, tomei um rápido café, minha esposa fazia um ótimo, e parti para a festa da igreja.

Quando cheguei, já estava bem cheio de convidados, muitos eu não conhecia. Cumprimentei a todos que ia vendo, conhecidos ou não. Não fazia nem meia hora que eu estava lá e comecei a me sentir mal. Não sabia se era algo que comi, me sentia tonto e cansado, a visão turva. Minha mente estava como nas minhas épocas antigas em que eu me droga a, comecei a ver coisas. Primeiro uma grande chama brotou bem em cima da mesa no altar principal. O fogo crepitava intensamente mas não queimava a mesa. Logo em cima das chamas uma balança pendia com seus dois marcadores de peso equilibrados. De um lado dos marcadores um ser diminuto envolto em vestes surradas, se é colhia como se estivesse com frio. Do outro, uma forma grandiosa de cavaleiro, trajando armadura completa e uma enorme espada curva nas mãos estava como se aguardando o combate. Mas a balança começou a pender para o lado da criatura encolhida. Ela levantou-se sorrindo triunfante, brandindo um gladio. Ela começou a correr por todo o templo, sacudindo furiosamente a espada, matando muitos que ali estavam. Todo mundo corria em pânico, gritando, chorando e se borrando de medo enquanto a criatura, a cada vida tirada crescia em tamanho e poder. O cavaleiro jazia impotente observando, cada vez menor até que a balança pendeu quase totalmente para o lado da criatura, que agora era um enorme demônio flamejante, que brandindo uma cimitarra fina e mortal.

Havia sangue e membros em todo o templo.
O demônio me rodeou brandindo sua arma. Eu olhava pra ele estarrecido. Pois bem se eu vou morrer, morrerei de cabeça erguida como um servo de Deus. Não havia motivo pra temer aquele monstro fruto da maldade. Ele tentou me atingir diversas vezes com sua cimitarra, mas num último esforço o cavaleiro invocou sua armadura impenetrável no meu corpo e eu não podia ser atingido. O monstro gritou furioso e impotente.

“Se eu não posso ferir-te, mortal, destruirei tudo que você ama, tudo que você construiu é a partir daí, farei ruir a tua fé”.

Ele partiu num giro de fogo que me atingiu com força. O cavaleiro agora não passava de uma fraca e esquelética forma que se dirigia a mim.

“Você é o novo portador da fé. Aquele que se redimiu e se arrependeu verdadeiramente dos seus erros. Aquele que renasceu como um novo homem. Agora carrega a armadura dos antigos, carregada com a força da fé dos antepassados. Você será constantemente testado e no momento que a sua fé ruir estará tudo acabado, nada mais poderá deter o Final”.

Não duvidei de nenhuma palavra que ele disse. Aceitei meu novo fardo. Estava pronto para servir.

Assim que esse pensamento passou pela minha cabeça, eu a armadura começou a esquentar, até que ela se tornou uma labareda viva me consumindo. A dor superou todos os meus sentidos, a pele despregou- se dos músculos, os próprios foram consumidos. Eu estava morrendo. Não vi mais nada.

Acordei com o povo da igreja me abanando com um pano. Eu estava deitado no banco. Me perguntaram o que aconteceu. Nem eu mesmo sabia. Queriam chamar uma ambulância, mas insisti que não era necessário. Lembrei das palavras do demônio. Corri desesperado para casa. Não quis pegar condução, montei na minha bike e corri como um condenado. Cada vez que me aproximava sentia que algo estava muito errado. Ao me aproximar do quarteirão da rua Turquesa, senti o cheiro da fumaça e o alvoroço dos carros de bombeiro e do povo que rodeava a minha casa.

Tentei furar o bloqueio e correr por entre as chamas que lambia as paredes da casa. Os policiais me seguraram, dizendo pra deixar os bombeiros fazerem o trabalho deles, eu só iria atrapalhar. Me joguei desolado no chão. Tudo que eu construí, que eu lutei pra conquistar foi retirado de mim.

No meio do povo eu vi uma sombra sorrateira. Ela olhou direto pra mim e sorriu. Seu sorriso era o puro mal. Era a guerra que se aproxima a e eu era um dos seus soldados. Minha fé não iria falhar e eu farei o que for preciso para obter esse triunfo.

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